O Barbas sempre vivera na Damaia. Sempre estivera ali. E sempre haveria de estar. Tinha um aspecto andrajoso, grandes barbas (como o nome indica) e muitas vezes tinha por companhia uma garrafa de litro de vinho, a qual guardava religiosamente debaixo duma marquise ao pé da Igreja. Andava sempre sozinho e falava com o Sol. Tinha olhos claros, o que lhe dava um ar ainda mais lunático quando olhava para o seu amigo.
Desde pequena, Inês estava habituada a cruzar-se com ele nas suas idas à praça com a sua avó.
- Como está, D. Maria? - perguntava sempre ele quando por elas passava. E a D. Maria lembrava-se de quando ele era pequeno e brincava com o seu filho nas traseiras do prédio. E sempre lhe respondia:
- Estou bem obrigada, e tu? - para logo a seguir se virar para a neta, - Inês, estás a ver? Tens que ficar ao pé de mim, porque senão o Barbas leva-te! - dizia-o só para a manter quieta. Na verdade, ele era inofensivo. E ela bem o sabia. Nunca mostrara qualquer intento violento. Apenas queria que o deixassem sossegado, nas suas teorias mirabolantes, partilhadas apenas com o seu eterno companheiro.
O tio da Inês por vezes contava como tinha o Barbas se tornado no Barbas. Contava como ele era uma mente brilhante! Cheia de ideias fervilhando lá dentro! E como um dia, depois de tanto estudo, as passou apenas a partilhar com a bola gigante de fogo... "Enlouqueceu, coitado...", dizia a D. Maria, "Estudou de mais...", dizia o tio. E todos acenavam concordantes. Todos, menos a Inês. Pois ela sabia que tinha de haver ali mais qualquer coisa.
1 comentário:
Ninguém elouquece por estudar demais...
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