10 setembro 2008

Um Pedacinho de Papel

Boston, 26 de Fevereiro de 1873

Passara um ano desde que John e Ella tinham partido bruscamente de Londres. Ella arranjara emprego numa casa de pessoas abastadas, onde dava lições de francês e piano às três meninas da família. John ensinava num colégio para rapazes no centro da cidade. Viviam num apartamento modesto, numa das muitas ruelas da cidade. Era constituído por apenas um quarto, uma cozinha e um pequeno cubículo a que gostavam de chamar "casa de banho", onde cabia pouco mais do que um alguidar para tomarem banho. Fizeram bastantes amigos entre os professores colegas de John e os próprios patrões de Ella frequentemente os convidavam para pequenas festas em sua casa. Podia-se, portanto, dizer que se tinham adaptado bem.
No entanto, havia algo que atormentava John. Algo que nada tinha a ver com aquela cidade ou com as pessoas que nela viviam. E tão pouco com Ella ou as saudades que tinha de casa. Tinha a ver com um simples pedaço de papel. Pedaço esse que segurava e contemplava mais uma vez. Tinha lido cada palavra que nele se encontrava milhões e milhões de vezes. E continuava a provocar-lhe a mesma sensação de culpa que sentira da primeira vez. Era uma carta. Tinha pouco menos de um ano. Viera endereçada à sua pessoa e nunca a mostrara a Ella, pela simples sorte de ter sido ele naquele dia a abrir a caixa do correio. Quando estava sozinho gostava de a ler. Não sabia porquê. Até porque lhe causa sempre um grande desconforto e sentimento de culpa. Mas havia algo naquela carta (talvez um cheirinho delicioso a passado) que o seduzia, forçando-o a relê-la vezes e vezes sem conta.
Cardigan, 15 de Março de 1872

Querido John,

Chego agora de Londres. Desta vez não poderei dizer que a viagem foi agradável. Como deves calcular o meu pai dirigiu-se a tua casa para pedir satisfações aos teus pais. Como deves calcular Evan Morris estava furibundo. E como deves calcular passei a maior vergonha da minha vida. Mas por outro lado, ainda bem que lá fomos... Como deves calcular também, o meu pai nunca nos vai perdoar este triste acontecimento. E só não resolveu o assunto como das outras vezes, para eu estar apresentável em Londres...
Não te culpo de nada, está descansado. E não estou exactamente irritada contigo. Nem qualquer sentimento parecido. Apenas estou triste... Eu amo-te, sabes? E... sempre achei que havia uma chance para nós. E quando concordaste com o arranjo de nossos pais achei que sentisses o mesmo por mim. A felicidade que experimentei no momento em que recebi essa notícia foi tal, que me é impossível descrevê-la. Foi como se tudo... fizesse sentido! Depois, quando te vi em Londres com a Ella percebi tudo. Percebi aqueles Verões a falares sem parar dela. Percebi a tua enorme vontade de voltares ao fim de pouco tempo. Percebi as saídas inesperadas sempre que te íamos visitar. Percebi que tu não me amavas. Que a amavas a ela. E que (para tua sorte) ela te amava a ti. Por isso, percebo também a vossa fuga desesperada. Só não percebo porque é que foste aceitar o casamento. Com tantas certezas em relação à Ella, porquê?! Podia-se ter evitado tanta, mas tanta coisa se tivesses tomado a decisão correcta...

Mas está bem, John. Como já disse, não te culpo de nada. Já não te culpo não. Eu desculpo-te. Estou demasiado cansada para conseguir gastar energias com isto.
Espero que vos corra tudo bem. Manda cumprimentos meus à Ella e vai dando notícias. Mas usa outro nome, por amor de Deus!!! Pode ser... Mathew Price.

Sempre tua,
Beatrix

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