Londres, 17 de Janeiro de 1872
Ainda nem eram oito horas da manhã e Ella já se encontrava defronte dos grandes portões do Hyde Park. Quase automaticamente, transpô-los e começou a percorrer aquelas ruas de areia que tão bem conhecia. Os grandes campos relvados estavam verdejantes, devido à chuva invernal, em oposição ao amarelo torrado habitual do Verão. Àquela hora, o parque estava deserto, tirando um ou outro vagabundo e um grupo de crianças sujas que brincavam na lama.
Não demorou muito a chegar ao seu destino: um grande plátano. Ficou, durante um bom bocado, simplesmente a olhar. Imóvel, pelo turbilhão de recordações que aquele local lhe provocava. Deu uma volta à grande árvore, como se a estivesse a inspeccionar. Como se quisesse verificar que esta se mantinha intacta. Que o seu passado se mantinha intacto. Encontrou um buraco. Sim, fora ali que tinham deixado o pequeno anel de prata, que para tantas brincadeiras servira e, por isso mesmo, para tantos ralhetes também. Olhou para a sua pulseira onde se mantinha incólume tal objecto desde o dia de Natal. Abriu-a, fechou-o na sua mão e devolveu-o ao sítio onde tinha permanecido durante mais de dez anos. De seguida agarrou-se ao ramo mais baixo, puxou as saias (estava-se pouco importando com as aparências) e trepou até ele. Não subiu mais, porque aquela roupa era um pouco incomoda para tal e, portanto, deixou-se ali ficar.
Começou a chorar. Tudo lhe vinha agora à memória. Mas ela estava ali por uma razão e, mesmo não sabendo muito bem qual ela era, apenas que era bastante impulsiva, ia acabar o que tinha começado. Limpou as lágrimas à mão e pôs-se a remexer na sua bolsa. Retirou de lá uma folha e um lápis (ficaria mais bonito a tinta, mas a pena e o tinteiro não davam grande jeito ali...), onde começou a escrever.
Londres, 17 de Janeiro de 1872
Querido John,
Neste momento encontro-me sentada em cima de uma árvore. Da Árvore. Decidi devolver o anel ao sítio onde durante tantos anos se encontrou. Achei que ficava melhor aqui do que na minha pulseira.
Peço desculpa por ter saído tão apressadamente do botequim no outro dia, mas, tal como tu, não me estava a sentir bem naquele local. Nem naquela conversa. Para dizer a verdade, o que o Tom disse foi sempre a minha esperança. A tua esperança. E agora, por minha culpa, tudo se foi... Desculpa...
Bem, mas não foi para te pedir desculpa que te estou a escrever. Estou-te a escrever, porque tomei uma decisão. E a minha decisão é que, tal como tu, vou seguir em frente. Vou sair de casa. Arranjo trabalho e compro um apartamento no centro de Londres. Em princípio irei tomar conta de crianças ou qualquer coisa desse género. Pelo menos até ao próximo ano lectivo... Vou-me candidatar outra vez à escola. Já tenho saudades das crianças... Acho que lhes vou fazer uma visitinha!
Mas continuando: vou também afastar-me durante uns tempos, pois agora as coisas entre nós estão bastante constrangedoras. Quando achares que és capaz de me enfrentar sem ficares da cor de um pimentão, sabes como me encontrar. Espero que não demore muito, porque senão morrerei de saudades do meu melhor amigo!...
Desejo as maiores felicidades para ti e para a Beatrix. E estou a ser sincera ao dizer isto! Não é hipocrisia nenhuma que só quero que sejas feliz...
Fico à espera do convite para o casamento!
Beijos,
Ella
4 comentários:
É preciso ter muito "estômago" para escrever essa carta =/
Continua óptimo! ^^
Sim senhora! Está um bom texto. Já não pisava por esta terra há muito tempo! está bonita =)
p.s: Tira esta coisa das verificações de palavras, é muito incómodo!
Por acaso já era para te ter pedido o mesmo que o césar pediu á imenso tempo! Ainda bem que tiraste. ERA CHATO! xD
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Como sempre deixaste a vontade de querer mais e mais...
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