06 novembro 2007

Tudo o que nunca te disse

Freswick, 10 de Outubro de 1871

Querido John,

Antes de mais peço desculpa por ter partido sem me despedir. Sei que esta mudança te pareceu bastante repentina (para dizer a verdade, também a mim me pareceu), mas estava a precisar de me afastar por uns tempos, pôr as ideias em ordem. É que ultimamente tudo tem sido repentino! Não foi só esta mudança... Tudo o que a condicionou aconteceu a uma velocidade vertiginosa. E eu não estou habituada a isso. Não estou habituada a nada...

Vim viver durante uns tempos para casa da minha tia-avó Aileen em Freswick. Tinha que me afastar de toda essa confusão que é Londres. Se soubesses como isto é calmo… E o mar?... O mar é tão bonito... E é tudo tão verde e azul! Isto é tão diferente…

Vou trabalhar para uma família abastada da zona, uns tais Roberts. Eles têm uma menina pequenina e precisam de uma preceptora. Acho que Mrs. Roberts está muito doente. Vou ter saudades dos meus meninos… De uma sala cheia...

Mas, adiante! Não é para te contar histórias que te estou a escrever, é para me explicar (se é que o vou conseguir fazer…)

Agora que estás longe, vou-te dizer tudo aquilo que nunca te disse. Não me perguntes porque nunca o fiz. Apenas... Não o fiz... Não tive coragem... Sabes que esse nunca foi o meu forte.

Nunca foi minha intenção magoar-te ao vir para cá. Peço desculpa se o fiz. Sei que o fiz... Só não me quis magoar a mim... Posso parecer egoísta ao dizê-lo, mas tenho a sensação que depois seria pior... O depois seria pior!...

Nunca fui muito boa nestas coisas de sentimentos. Nunca as compreendi lá muito bem. Talvez não haja nada para compreender, mas tenho esta estúpida mania de tentar racionalizar tudo! Penso e repenso e nunca chego a lado nenhum!... Às vezes sinto que nem chego bem a viver... Às vezes sinto isso mesmo em relação a ter vindo para Freswick...

Não sei se aqui vou chegar a algum lado. Quase que aposto que não… Espero que não esteja a cometer o maior erro da minha vida ao afastar-me de ti. Mas precisava de respostas… Por isso é que voltei às minhas origens. Já que não encontrei essas tais respostas em Londres, pode ser que as encontre na terra natal da minha mãe. Não percebo por que é que não ficaram antes todos aqui…

No Natal vou aí. Vou passá-lo com a minha família. E como é óbvio visitar-te-ei a ti e à tua! A não ser que não te sintas confortável com a situação… Ou estejas muito chateado comigo… Espero que não.

Aguardo a tua resposta.

Com amor,

Ella

1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei da carta mas acabei por não perceber que respostas procura a Ella...